Como as empresas podem ajudar funcionários trans e travestis

10 November 2016
 

Desde criança, Maria Fernanda Hashimoto já sabia que era uma mulher. Mas só aos 24 anos ela decidiu assumir sua identidade para as outras pessoas. Ela era engenheira biomédica e especialista de assuntos regulatórios na multinacional General Electric quando iniciou sua transição.

“Quando souberam da minha situação, formou-se um comitê para apoiar minha transição, com envolvimento da área médica, RH e jurídico da empresa”, conta. Maria Fernanda recebeu licença médica de cerca de 30 dias para realizar as cirurgias de readequação sexual. Ao retornar ao trabalho, seus documentos e crachá já tinham seu nome social. Ela afirma que tudo foi possível porque a GE é uma das poucas empresas presentes no país que já tinha uma política sobre a questão.

“Assumir minha identidade de gênero e contar com a aceitação dos colegas trouxe um grande bem-estar. Me senti mais motivada”, conta. O resultado foi um rendimento ainda melhor, que proporcionou a Maria Fernanda um salto de carreira. Cerca de um ano depois, ela foi chamada para assumir uma posição na Becton Dickinson (BD), outra empresa americana de equipamentos médicos. A nova contratante foi igualmente cuidadosa e providenciou credenciais de acordo com seu nome pós-transição, mesmo que a mudança oficial ainda estivesse em trâmite judicial.

Inclusão e crescimento econômico

Maria Fernanda hoje se sente segura e valorizada no trabalho, mas ainda é uma exceção. No Brasil, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) aponta que 90% delas ainda sobrevivem da prostituição. Em boa parte dos casos, devido à baixa escolaridade e por falta de acolhimento no mercado de trabalho. Mudar esse quadro impacta não apenas na melhoria da qualidade de vida dessas mulheres, mas no crescimento econômico.

Uma pesquisa apresentada pelo Banco Mundial em 2014 no debate “O custo econômico da homofobia” estima que a discriminação contra a comunidade LGBT pode custar ao mundo um prejuízo econômico de até 32 bilhões de dólares ao ano.

O estudo “A Relação entre Inclusão LGBT e Desenvolvimento Econômico: Uma análise das Economias Emergentes”, conduzido em 2014 pelo Williams Institute em 39 países, também encontrou uma forte ligação entre a marginalização da comunidade LGBT e a perda de potencial econômico. Os dados apontam que situações de falta de moradia, desemprego, pobreza e depressão atingem mais a comunidade LGBT do que a população heterossexual cisgênera ocasionando uma grande perda de potencial humano.

Um dos compromissos da ONU para os povos alcançarem um mundo livre, igualitário e mais próspero é a Promoção dos Direitos Humanos de Pessoas LGBT no Mundo do Trabalho. Para auxiliar as empresas e governos a oferecerem trabalho seguro, decente e acolhedor para pessoas LGBT, a organização lançou um Manual de Direitos Humanos LGBT no mundo do trabalho que está disponível para download. A publicação foi elaborada com a colaboração das Nações Unidas e mais de 30 representantes de empregadores, trabalhadores, governo, sindicatos e movimentos sociais ligados aos temas LGBT e HIV/AIDS.

Ajuda para superar barreiras

O preconceito e a falta de informação ainda são os maiores entraves para aceitação de mulheres trans e travestis nas empresas. Designadas homens ao nascer, elas passam por um processo de transição social ao externalizarem sua identidade de gênero, que inclui mudanças físicas, nas vestimentas e do nome social. Paulo Bevilacqua, artista plástico e ativista trans, conta que a discriminação é ainda maior quando não há a chamada “passabilidade cisgênera”, ou seja, quando é possível identificar visualmente que se trata de uma pessoa transgênero. “É comum que a pessoa trans seja posta para fora de casa e da escola. O emprego negado é a terceira exclusão que ele ou ela sofre”, afirma.

Para auxiliar a participação de profissionais transexuais no mercado de trabalho, Paulo e a programadora Daniela Andrade, também ativista trans, criaram o site Transempregos. Funciona como um banco de currículos, no qual também são divulgadas vagas abertas a candidatos transgênero. Recentemente, a dupla também criou o Transerviços, catálogo online de prestadores de serviços especializados no atendimento a pessoas trans, como psicoterapeutas, advogados e médicos, entre outros.

Essa rede de contatos pode ajudar, por exemplo, a fazer a ponte entre empresa e funcionário quando há uma situação de mudança de sexo. “Muitos empregadores ainda não sabem lidar com trocas de nomes, por exemplo. Eles temem que isso configure fraude e possa gerar algum processo pelo Ministério do Trabalho”, afirma a advogada Adriana do Valle, uma das cadastradas no Transerviços. “Mas aceitar o nome social e o uso do banheiro feminino dão dignidade à colaboradora, isso não causa nenhuma punição. As empresas precisam se informar melhor sobre a legislação” diz. 

Saiba mais em: Antra, ONU Brasil e Transempregos.