Conheça Alexandra

15 June 2016

Tell us your story

Thanks for the story. Something is wrong. Try again later.
 

Orgulho contra o preconceito

"Meu sonho é ver 57% de personagens e apresentadores negros na televisão brasileira"

Consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras abraçou a luta contra o racismo e tornou-se um ícone do empoderamento feminino, sobretudo para a representatividade da mulher negra. Ela usa o prestígio social e espaço que conquistou na mídia para dar visibilidade a milhões de pessoas que sofrem preconceito todos os dias.

Do gueto ao consulado

Alexandra Baldeh Loras ainda não chegou aos 40 anos e já viveu muitas vidas em uma só. Nascida no gueto de Corbeil-Essonnes, na periferia de Paris, formou-se mestre em Gestão de Mídias pela mais importante escola de Ciências Políticas da França, o Institut d’études politiques de Paris (Sciences Po), foi uma das poucas apresentadoras negras em um programa de TV francês, atualmente viaja o mundo com palestrante de diversidade e é consulesa da França em São Paulo. Um caminho nada fácil, trilhado com otimismo para superar e questionar o preconceito racial.

Seu pai era um imigrante da Gâmbia e foi dele que Alexandra herdou a cor da pele. O que deveria ser apenas uma característica física, ainda na infância se revelou um obstáculo à autoestima. Embora tenha recebido educação e oportunidades de desenvolver uma carreira, a jovem sentia a diferença de tratamento em relação a suas colegas brancas. “A baixa autoestima do negro é uma doença psicológica que ainda não tem nome, mas que impede as crianças negras de empurrar as portas da universidade e, mais tarde, dos melhores cargos”, diz.

Em 2013, ao mudar-se com seu marido, o cônsul francês Damien Loras, para o Brasil, Alexandra se surpreendeu com a ausência de representatividade da população negra em cargos de liderança, na mídia, nos produtos para crianças e até na história do país. “O Brasil é o país com o maior número de afrodescendentes do mundo depois da Nigéria. Há estimativas de que até 57% da população brasileira seja negra, mas isso não está representado na mídia, nas empresas e nos livros didáticos”. Além disso, ela mesma começou a passar por diversas situações que deixavam evidente o preconceito racial, contrariando a ideia de que a discriminação no país se trataria de uma questão apenas de classe social.

Luta com informação e elegância

A consulesa decidiu elevar o debate e partiu para a luta com empoderamento, informação e elegância. “O racismo no Brasil é estrutural e subliminar, por isso é tão complexo. Não há nenhuma lei dizendo que os negros não têm direitos, mas a divisão é clara. Os negros se sentem desconfortáveis em determinados espaços”, diz. Para se comunicar e mudar essa realidade, ela escreve um blog sobre dignidade negra, moda, estilo, cultura e direitos voltado para jovens. Só neste ano participou de 52 eventos sobre diversidade, foi uma das palestrantes convidadas para o TEDx em Cannes e durante os eventos do mês da consciência negra em Harvard. Em 2015 falou no TEDx São Paulo, foi uma das painelistas do Open Fórum de Davos e foi entrevistada por diversos veículos da mídia nacional e internacional, como Jô Soares e Regina Casé. Além de inspirar pessoas de todas as classes, Alexandra coloca em pauta assuntos como a quebra dos estereótipos sobre as mulheres negras, violência contra afrodescendentes e a falta de oportunidades e de referencial positivo para os jovens negros.

“A mudança social vem através da mídia, que ajuda a formar um inconsciente coletivo muito forte. É por isso que o negro precisa ocupar esse espaço de uma forma positiva”.

Uma das estratégias de Alexandra é pesquisar e divulgar o trabalho de pessoas negras de destaque, como o escritor brasileiro Machado de Assis, o engenheiro Teodoro Sampaio e o inventor André Rebouças. O resultado da pesquisa será apresentado em um livro escrito em parceria com Carlos Eduardo Dias Machado, mestre em História Social pela USP. Gênios da Humanidade: Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente, deve ser lançado ainda neste ano pela editora DBA.

Quando dá uma entrevista, Alexandra costuma deixar os apresentadores de TV desconcertados ao questionar atitudes e ideias que escondem o preconceito racial no Brasil. “Se você aprendesse, mesmo que subliminarmente, que as pessoas brancas são criminosas e apenas capazes de serem seguranças ou faxineiras, não seria chocante? Pois é em um mundo assim que nós, negros, vivemos”, compara.

Comunicação é sua arma

Para Alexandra, a melhor forma de superar o preconceito é enxergar que ele existe. “É ter a coragem de tornar público o mal que ele causa. Para isso, é importante criar coletivos e comunidades para levantar a voz. As redes sociais, por exemplo, são uma plataforma poderosa para iniciar essa revolução pacifista”, afirma.

Ao lado de Eliane Dias, Advogada e empresária do grupo de rap Racionais MC’s, Alexandra criou o coletivo Negras Empoderadas, formado por cerca de 400 mulheres negras atuantes no mercado de trabalho em cargos de liderança que se encontram para discutir temas como representatividade dos negros na mídia, violência doméstica e políticas públicas para a população negra. “Reuni essas mulheres porque temos muito em comum, inclusive naquilo que nos faz sofrer. Nos sentimos sozinhas em uma elite majoritariamente branca e, assim, podemos compartilhar uma visão de mundo”, diz.

Um dos resultados dessas reuniões é o TEDxSãoPaulo, que irá ocorrer dia 23 de julho com um time de palestrantes com 20 mulheres negras e apenas dois homens, subvertendo a proporção que normalmente existe neste tipo de evento. “É preciso ter representatividade. O negro consome mais de 700 bilhões de reais a cada ano, então ele precisa estar nas campanhas publicitárias e nos comitês executivos das empresas. Assim como as mulheres, que ainda representam só 6% dos cargos de liderança. Meu sonho, como aquele de Martin Luther King, é que um dia os comitês executivos no Brasil tenham 52% de mulheres e 57% de negros para representar a verdadeira população brasileira.”, afirma.

Saiba mais sobre a Alexandra Loras no Facebook e Instagram.

Fotos: Alessandra Levtchenko – Divulgação.

Tell us your story

Thanks for the story. Something is wrong. Try again later.