Conheça Iza Jakeline

29 September 2016

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Pedra, palavra e atitude

"Tudo que passei voltou de forma positiva para minha vida. A prisão foi importante para despertar minha paixão pelo Direito e pela Literatura"

Iza Jakeline passou fome nas ruas de São Paulo e foi presa injustamente em Sergipe. Cara a cara com a injustiça e o sofrimento, encontrou forças no movimento Hip Hop para reconstruir sua vida. Hoje ela estuda Direito, chefia uma equipe de homens que reformam prédios da SSP-SE e ainda encontra tempo para incentivar o empoderamento feminino, como Presidenta da Frente Mulheres no Hip Hop em Sergipe.

Da periferia

Quando Iza Jakeline conta sua história, o tom leve e a fala ágil contrastam com as suas palavras. Ela nasceu na periferia de São Paulo, e foi a primeira de quatro irmãos. Aos 14 anos, perdeu a mãe. O pai, alcoólatra, não conseguiu tomar conta dos filhos. Os quatro foram viver na rua, guardando carros. Juntando o que ganhavam, mal dava para comprar comida.

“Passávamos frio e fome. Na época, a droga que podia levar para a criminalidade era a cola. Resistimos como dava, mas um dos meus irmãos não conseguiu e acabou sendo preso”, lembra. No tempo em que passou por um abrigo, conheceu o movimento Hip Hop e aprendeu a usar a escrita para canalizar sua raiva e frustrações pelas situações que vivia.

Em 2003, aos 19 anos, Iza juntou um pouco de dinheiro e comprou uma passagem para a Bahia. De lá, pegou carona até Aracaju e foi viver com a avó, que morava em uma casa com quintal, onde havia pés de manga e jenipapo. Ela vendia as frutas na vizinhança para se manter e ajudar a avó.

Apesar das dificuldades, Iza nunca deixou de estudar. “Foi uma lição que minha mãe nos deu para ser alguém na vida”, diz. Na capital sergipana, buscou novamente o apoio no Hip Hop e chamou atenção com as letras de música que criava. Era uma das poucas mulheres na cena e se tornou a primeira delas a cantar rap na cidade.

A investida como rapper, com shows à noite e encontros com o grupo, não era bem aceita pelo seu então marido. O relacionamento era turbulento. “Ele tinha um temperamento violento, muito machista. Não admitia minha autonomia”, conta. Preferiu se separar, levando consigo os dois filhos.

Reviravolta

No fim de 2009, o irmão que havia sido preso ganhou liberdade e pediu ajuda. Ele e a esposa foram morar com Iza em Sergipe. Iza lembra do movimento de visitantes, mas acreditava que eram amigos do casal. “Até que a polícia invadiu minha casa e prendeu todo mundo. Eu estava grávida de dois meses do meu segundo marido. Fui algemada e apanhei sem fazer ideia do que estava acontecendo”, afirma. O irmão e a cunhada vendiam drogas e, como tudo ocorria em sua casa, Iza e o marido também foram presos por associação ao tráfico.

Iza não gosta de lembrar tudo que viveu na cadeia. Deu à luz encarcerada. “Lembro de estar algemada e o médico dizer ‘cala a boca e bota esse menino pra fora’”. Durante os seis meses de aleitamento, o bebê ficou com ela, mas depois foi encaminhado para a guarda da avó paterna. “Foi uma dor muito grande. Senti que não tinha nada além do meu próprio cérebro. Lia e escrevia para diminuir o sofrimento”, conta. O pai da criança, libertado após cumprir um ano de detenção, nunca a perdoou pelo ocorrido. Da pena de nove anos, Iza cumpriu um terço e foi libertada em 2014. Até hoje não recuperou a guarda do filho e só pode visitá-lo a cada quinze dias.

Voltar ao trabalho

Ao ganhar liberdade, o desafio de Iza era encontrar quem estivesse disposto a empregar uma ex-detenta. Trabalhou em alguns salões de beleza, mas sentia que a situação era precária e não ganhava bem. Decidiu entrar em um programa de capacitação do Conselho da Comunidade de Execução Penal (CCEP) para reintegração de ex-presidiários ao mercado de trabalho. Era a única mulher entre 22 homens no curso de pedreiro.

O empenho não passou despercebido. Depois da capacitação, a Secretaria de Segurança Pública de Sergipe, que tem um contrato com o CCEP, convidou Iza a chefiar uma equipe de egressos do sistema prisional que prestam serviços de construção e manutenção nas cadeias e delegacias do Estado. Hoje tem uma equipe de dez homens, entre pintores, pedreiros e eletricistas.

Na mesma época, Iza começou o curso de Direito em uma faculdade particular. Conseguiu custear as mensalidades com apoio institucional e financiamento público, mas ainda faltavam quase R$ 900 para a matrícula. “Apelei para os amigos. Fiz uma campanha pelo Facebook para pedir doações. Deu certo, o pessoal apostou em mim e consegui arrecadar o dinheiro”, conta.

Mulher do Hip Hop

Além de se dividir entre o trabalho e os estudos, Iza integra o movimento das mulheres no Hip Hop. Canta na banda La Femina e, como presidenta da Frente Mulheres no Hip Hop de Sergipe, se reúne com outras ativistas para discutir preconceito racial e realizar eventos voltados para o empoderamento de mulheres negras. “Em nosso Fórum Estadual, por exemplo, vamos discutir o que é cultura do estupro. Vamos fazer isso em uma escola pública para atingir mais pessoas”, diz.

As Mulheres no Hip Hop também realizam várias outras atividades: oficinas de grafite e turbante, dança afro, feira de artesanato elaborado por ex-presidiárias e difusão da literatura marginal, produzida por autoras da periferia, como a própria Iza. Ela já publicou textos em coletâneas e agora se prepara para lançar o livro Mulheres que Enxergam a Vida sem Maquiagem, com textos que escreveu contando seu cotidiano atrás das grades.

A estudante de Direito ainda encontra tempo para ajudar a fortalecer a autoestima de outras mulheres negras. Especializada em cabelos afro, tem uma renda extra atendendo clientes em casa, nos fins de semana. “Tudo que aprendi procuro transmitir para as pessoas ao meu redor e para os meus filhos. Não escondo nada do que passei. Eles têm orgulho de saber que superei tudo isso para ser quem sou hoje”, afirma.

Saiba mais: Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop – Sergipe

Foto por: @eliisalemos

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