Conheça Razan

03 June 2017

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Cidadã do Mundo

"Quando você cozinha e dá a comida para alguém, e a pessoa gosta, você fica muito feliz. Eu sinto ‘Razan, você fez alguma coisa boa hoje’. Eu gosto de sentir isso."

Refugiada no Brasil, Razan transformou um hábito cultural comum em profissão. Com receitas originais da Síria, ela conquistou a exigente clientela gastronômica de São Paulo, e garantiu à família o recomeço que buscavam no país. Hoje, ela e o marido são donos da Razan Comida Árabe, serviço de entrega de comidas árabes para festas e eventos de todos os tamanhos.

Refúgio e recomeço

As delícias da Razan são também um pedaço de sua identidade. A tradicional comida árabe, como chamamos no Brasil, é parte essencial da cultura Síria. Razan cozinhava por hábito, e nunca pensou que um dia essa fosse ser sua profissão. Antes de vir para o Brasil, ela era professora de inglês para crianças, e já havia trabalhado com sistemas de informação ajudando a configurar a rede interna de uma empresa de pequeno porte em Aleppo.

Quando a guerra começou em seu país, Razan viu amigos e familiares se espalharem pelo mundo. A maioria se refugiou na tentativa de sobreviver. Ela resistiu o quanto pode, mas quando Aleppo se tornou o centro do conflito, Razan e o marido Mohamad tiveram que mudar os planos. Ela estava prestes a começar a maior jornada de sua vida. Durante toda a trajetória do refúgio, desde a saída de Aleppo, Razan não sabia, mas estava grávida do filho Adam, hoje com 2 anos.

Para sair da cidade, ela e o marido tiveram que viajar em carro, pagando caro por um transporte pirata, sem segurança e sem garantias. Cruzaram a fronteira da capital, chegaram em Hama e em seguida a Damasco. Trocaram de transporte e motorista três vezes, e finalmente chegaram à embaixada do Brasil no Líbano, onde conseguiram visto e a viagem para o país.

Razan conta que, inicialmente, não queria vir para o Brasil. Um lugar tão longe de casa, com uma cultura tão diferente da dela e cujo idioma ela nem conhecia. Mas esse era o lugar onde estavam aceitando os refugiados sírios, e a vinda para cá era relativamente segura, sem riscos de travessia. Mohamad escolheu o Brasil por ser um país que nunca tinha vivido nenhuma guerra. Ele não conhecia ninguém aqui, nem tinha um plano definido para quando desembarcasse do avião.

Chegaram em São Paulo em agosto de 2014, sem falar o idioma e com dificuldades de encontrar pessoas que falassem inglês. Ainda no aeroporto internacional de Guarulhos, Razan se arrependeu da viagem e pediu a Mohamad para voltar para a Síria. “Comecei a passar mal, de pressão baixa. Eu estava chorando e falando em árabe com ele, eu queria voltar. Um homem refugiado da Síria estava no aeroporto, ouviu a gente e veio ajudar”, conta. A queda de pressão já era o sinal da gravidez, que só foi descoberta uma semana depois. Adam nasceu em 28 de fevereiro de 2015.

Por meio do homem desconhecido, Razan e Mohamad conheceram a Caritas e a Mesquita Brasil. A mesquita disponibilizou um lugar no Cambuci, bairro de São Paulo, para o casal morar. Para ganhar dinheiro, Razan trabalhou como ambulante vendendo água no centro da cidade. “Eu ficava perto dos policiais, tinha medo daquele lugar, e queria que eles me protegessem. Mas eles não deixavam eu ficar perto, diziam que não podiam cuidar de mim”, conta. O marido tentou trabalhar consertando aparelhos eletrônicos também no centro, mas depois de seis meses os dois se viram novamente sem fonte de renda.

Estrela própria

Foi cozinhando para a reunião na casa de uma vizinha que o talento de Razan foi descoberto. Ao provar os pratos típicos feitos pelas mãos dela, seguindo receitas originais do país, a vizinha de Razan se surpreendeu. Divulgou para os outros moradores do prédio, e a notícia foi se espalhando pelos grupos de mensagens. No início, os pedidos vinham somente da região onde ela mora, feitos em sua maioria por conhecidos e amigos dos moradores do bairro. Seguindo a dica de uma amiga, Razan decidiu fazer uma publicação no grupo do Facebook Dots. O post estourou: mais de 300 comentários, 5 mil curtidas e muitos pedidos. Muito mais do que a Razan conseguiu atender.

Ela decidiu criar uma Página no Facebook para divulgar e organizar o serviço, a Razan Comida Árabe. “No início eu mesma fazia, depois pedi ajuda do meu vizinho para montar o cardápio, porque eu ainda fazia algumas coisas erradas”, explica. Pouco a pouco foi colocando fotos das comidas que fazia, algumas tiradas por ela e outras enviadas por clientes, e informações sobre eventos que ela era convidada para participar.
Hoje Razan tem a própria cozinha, em frente ao apartamento onde mora, conquistada com muito esforço e com a ajuda de um financiamento coletivo. Todo o material que está dentro da cozinha foi doado ou comprado por amigos que ela fez aqui. O marido Mohamad ajuda fazendo as entregas e cozinhando os doces.

O casal conta com a ajuda de três brasileiras, voluntárias, para organizar os pedidos que chegam pelo Facebook, sua participação em eventos e o conteúdo que divulga na Página. Algo em Razan conquista todos que convivem com ela. Segundo ela, a comunidade que construiu aqui, de pessoas refugiadas e de brasileiros, é o que a ajuda seguir adiante. “Eu agradeço os brasileiros por como eles estão fazendo eu ter a minha vida aqui.”

Razan foi selecionada pelo Facebook para participar de reuniões pontuais de acompanhamento. Durante seis sessões, uma equipe a ajudou a conhecer e usar ferramentas que facilitam a interação dela com o público, e que a permitem ter total autonomia sobre o cardápio e serviços que oferece. Antes, ela dependia da ajuda de voluntários designers para fazer o cardápio. Usando mensagens automáticas, mensagens salvas, Loja do Facebook e Anúncios, Razan profissionalizou o serviço e o atendimento, e se tornou totalmente autônoma. “E eu adoro aquela coisa que você já tem as respostas preparadas para as pessoas. E eu também fiz o anúncio no Facebook. Antes eu achava que só empresa muito grande que podia ter isso, mas agora eu também tenho”, comemora.

Saiba mais sobre a Razan Comida Árabe no Facebook.

Foto: Fellipe Abreu

 

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