Carina Guedes

Carina Guedes

Mãos à obra!
Carina Guedes
Enxergamos a moradia como um direito e não como produto

“Enxergamos a moradia como um direito e não como produto”, diz Carina Guedes, a fundadora do projeto Arquitetura na Periferia. Desde 2013, ela se dedica a trabalhar com um público que raramente pode contar com os serviços de arquitetura na construção ou reforma de suas casas. Mas em vez de oferecer seus serviços, a metodologia de trabalho de Carina e suas companheiras (que hoje são engenheiras, outras arquitetas, psicóloga e assistente social) está pautada na cooperação e compartilhamento de informações. O trabalho é feito em grupos em que as participantes, moradoras de bairros periféricos, aprendem a desenhar, medir, projetar, planejar e executar alguns serviços da construção, ajudando-se mutuamente. Com isso, além da melhoria do espaço físico da casa, há uma elevação na autoestima e na autoconfiança das envolvidas. A ONG Arquitetura na Periferia ainda concede um microcrédito, que empresta dinheiro a juros zero para a compra de materiais, por exemplo.

O projeto surgiu de uma inquietação também acadêmica de Carina, que durante o mestrado procurou entender por que os arquitetos estão tão distantes da periferia. Ter um plano de reforma ou um projeto para construção não deveria ser visto como algo supérfluo, como um gasto desnecessário, segundo a arquiteta. Pelo contrário, pois quando não se tem um planejamento, a reforma ou construção acaba tendo condições de menor qualidade, gastando mais e provocando desperdício de material – e de dinheiro.

“Na época que comecei, li sobre negócio social e tinha uma pegada bem empreendedora mesmo. Além do planejamento da reforma, eu propus que elas fizessem uma poupança para lidar com o microcrédito. Os primeiros resultados foram muito além do que eu esperava em forma de autoestima e autoconfiança das envolvidas”, Carina lembra. De lá para cá, o trabalho já foi feito com 11 grupos, em três comunidades de Belo Horizonte e em uma experiência em São Paulo.

Nesse meio tempo, Carina teve uma filha, Sol, e começou a investir mais no projeto também porque era algo em que poderia levá-la. “Ela ainda vai comigo e as participantes também levam os filhos. A gente sempre fala que elas podem levar, ninguém vai deixar de ir por não ter com quem deixar a criança”, ela reforça. Para a arquiteta, essa inclusão da maternidade foi muito importante para seguir trabalhando, “que é uma coisa que eu gosto”, logo após o nascimento da filha. Além disso, “também é importante ela viver essas situações, que é o que eu trabalho, o que eu sou e as diferentes realidades”.

Decisões comunitárias

Do fim do ano passado para cá, Arquitetura na Periferia se tornou um instituto independente das Arquitetas Sem Fronteiras, com quem atuava até então. As captações de recursos são feitas por meio de doações (no catarse.me/arquiteturanaperiferia), editais, pela promoção de workshops e de eventos. O dinheiro recolhido serve para remunerar quem trabalha e como banco de microcrédito para as reformas. Funciona como um banco comunitário em que as mulheres dos grupos decidem como serão feitos os empréstimos, que são a juros zero. “Abrimos a conta e todo mundo vê decide junto como usar”, diz Carina.

Os encontros acontecem semanalmente por aproximadamente quatro meses para tocar os projetos de cada grupo. “A gente vai testando e aprendendo e tentando melhorar com o tempo”, conta Carina sobre o processo de trabalho desde 2013. Quando a ONG promove um workshop com público externo das comunidades, aproveita pra fazer mutirão para tocar um dos projetos. “É legal que a pessoa que está participando ter essa experiência e para a mulher ter seu projeto adiantado”.

Como consequência do projeto, vê-se que colocar ordem na casa, literalmente, tem um poder muito grande sobre quem se envolve. “Na construção da casa, a gente fala até de emancipação. É muito impactante ver a transformação delas. Vai muito além da casa, vai desde empreendimentos na comunidade, tipo formar um grupo de mulheres para festa junina e cooperativa de costura, até os relacionamentos, como não aceitar mais alguns tipos de abuso. Elas se fortalecem muito nos encontros, criam uma força coletiva. Isso também porque todas elas são protagonistas do processo. É um despertar produtivo”, Carina resume. Para o futuro, há o desejo de ser um lugar que apoia e conecta outros coletivos, ser parte de uma rede, entendendo a emancipação da mulher como principal objetivo. Para quem constrói uma casa, certamente construir estes outros espaços será um desafio possível.

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