Conheça Aíla
Brasil

Conheça Aíla

Carreira musical independente
Conheça Aíla
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Não espere o aval de ninguém para colocar seu trabalho no mundo, se você acredita no que está fazendo, vai lá e arrasa!

Natural de Belém, no Pará, a cantora Aíla Terra Firme é co-criadora do Festival M.A.N.A., que reúne artistas em uma programação que debate o protagonismo da mulher nas artes. Seu segundo disco, “Em Cada Verso Um Contra Ataque”, lançado em 2016, traz suas primeiras composições e fala sobre o “o que precisa ser dito por uma mulher”. Em entrevista, ela comenta sobre a experiência de gerir a própria carreira, dá dicas de empreendedorismo e fala sobre como sua rede foi importante para ajudá-la a tirar projetos e sonhos do papel.

Desde pequena, Aíla foi estimulada a ouvir todo tipo de música pelos LPs e fitas cassetes da mãe. Pelas rádios, carros-som e festas de aparelhagem, chegavam sons quentes da América Central que se misturavam às referências locais: cumbia, lambada, brega, tecnobrega, o beat da periferia, carimbó e guitarrada. Na faculdade, inscrita no curso de letras, o destino tratou de colocá-la ao lado das aulas do curso de Música. “Não tive como escapar, a arte sempre falou mais alto”, brinca. Mesmo segura de que queria seguir com o curso no qual se inscreveu, Aíla não queria abrir mão de cantar. Foi nessa época que ela começou a se apresentar em bares pela noite de Belém, enquanto conciliava a carreira noturna com o estágio pela manhã e com as aulas na parte da tarde. “Era uma correria mil, mas foi um tempo ótimo, cheio de descobertas e muito aprendizado”, afirma.

Em 2011, Aíla criou a produtora 11:11 Arte Cultura e Projetos em parceria com sua mulher e artista visual Roberta Carvalho. A produtora foi criada com o objetivo de gerir suas próprias carreiras e, paralelamente a isso, promover o intercâmbio e diálogo cultural entre a Região Norte e o resto do Brasil. No ano seguinte, Aíla lançou seu primeiro disco, “Trelêlê”, em que mistura a tradição popular musical do Pará com uma sonoridade mais moderna. Em 2016, se uniu a outras mulheres artistas de Belém para criar o Festival M.A.N.A., que reuniu mais de 5 mil pessoas em 4 dias de evento.

Para saber mais sobre a questão da mulher no mercado musical, assista à conversa sobre “Música e negócio” com Mahmundi e Eliane Dias (Boogie Naipe).

Fale um pouco da sua opinião sobre o protagonismo da mulher na arte.

Esse é um tema muito caro. Em 2015, me mudei para São Paulo com a intenção de criar novas conexões e fazer o meu trabalho circular mais. Nessa época, novas referências chegaram. Meu lado ativista e inquieto acabou roubando a cena. Hoje eu enxergo cada vez mais resistência, esclarecimento e luta por parte de nós mulheres, e acho incrível ver a mulherada indo para a rua, criando seus espaços de diálogos, de debates, e fortalecendo uma rede feminista importante dentro das artes. O único caminho é a união, para a revolução, a transformação, e isso está acontecendo. É claro que ainda temos muito machismo para derrubar, mas já percebemos que juntas somos mais fortes e podemos muito mais. Não existe mais tolerância com o preconceito, queremos direitos iguais, queremos as mesmas oportunidades, as mesmas condições.

Como tiraram o M.A.N.A. do papel?

Em 2016, nós sonhamos realizar um festival de arte e feminismo em Belém, para fortalecer, debater a representatividade e o protagonismo da mulher nas artes e questionar as desigualdades de gênero na indústria criativa. Além de criar afetos e elos entre as manas. Conseguimos realizar a primeira edição com apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Pará. O evento agregou música, artes visuais, intervenções urbanas, oficinas, mostra de cinema, palestra, meet up, pocket shows, graffiti, slam e muito mais. Durante os quatro dias, tivemos uma média de 5.000 pessoas participando. Para nós, foi uma grande surpresa. Na palestra com a filósofa Djamila Ribeiro, por exemplo, tivemos que colocar um telão fora do auditório para a galera que não conseguiu entrar. Foi bonito demais. E agora queremos mantê-lo anualmente. Estamos em fase de captação para a segunda edição, que deverá ocorrer ainda este ano. A região Norte carece de pautas nesse sentido, é fundamental fortalecemos a rede de mulheres artistas como um todo. E é demais ver que o M.A.N.A. serviu de exemplo para outros festivais que estão surgindo este ano pela Amazônia, em outros estados. A ideia é exatamente essa, estimular mais espaços de diálogo, de fortalecimento.

Para você, o que é ter um espírito de empreendedora. Acha que tem esse espírito?

Bem, eu acho que tenho espírito de autonomia, de independência, e muita vontade de realizar as coisas em que acredito, e que podem mover não só a mim, mas sempre um coletivo. Foco totalmente em metas que me levem a isso. Não gosto de depender de ninguém para realizar os meus sonhos, e assim me movo a seguir desbravando caminhos que não conheço. Sigo em busca de empreender para transformar politicamente o agora. Você sonha, você quer, você planeja, você cria metas, você deposita as suas energias nisso, e vai até o fim. Parece uma dica óbvia, mas não é.

Qual a importância de sua rede de mulheres na sua trajetória de carreira e de vida?

Busco me aproximar de mulheres em todos os trabalhos que realizo. Tento agregar cada vez mais mulheres em todas as etapas de produção do meu trabalho, e assim tenho construído uma rede fundamental para trocas e aprendizados diários. Todos os meus cinco videoclipes, por exemplo, foram dirigidos por mulheres. Acredito que o momento é de rever nossas posturas e tentar destruir essa estrutura machista e excludente que nos enfraquece e distancia. Vamos celebrar nossas conquistas juntas sim, e nos unir, cada vez mais.

Acha que sua carreira não teria corrido do mesmo jeito se você não tivesse criado a produtora?

Acho que faz muita diferença sim você se autogerir. No meu caso, eu gosto de pensar em tudo, saber de tudo que está rolando e estar envolvida em todos os processos. Ninguém mais do que você acredita no seu trabalho. Nesse sentido, não bati com a cara na porta porque nunca quis depositar a minha carreira a um empresário ou gravadora. Sempre fui a minha própria empresária e agora a minha própria produtora fonográfica. As coisas talvez andem um pouco mais devagar, porque você tem que abrir as portas, uma a uma, do zero. Mas tenho muitas parceiras que trabalham comigo hoje, é essa forma de gestão que busco, uma que cuida do booking dos shows, outra da imprensa, outra da captação de recursos dos projetos, sempre caminhando com mulheres potentes ao redor.

Como você conseguiu produzir o primeiro disco?

Nunca tive grana própria para patrocinar meus sonhos, infelizmente. Então, em 2010, comecei a pesquisar maneiras de financiar meu primeiro disco. Daí descobri as leis de incentivo à cultura, me inscrevi, pensei em todo o conceito do trabalho, justificativas, objetivos, custos. Com o projeto aprovado, recebi o aval para captar recursos, e fui atrás de empresas que se encaixassem no perfil do projeto. Achei o edital de uma empresa de telefonia e o projeto passou. Talvez pareça simples, mas foi uma busca intensa, um ano inteiro na labuta para tentar compreender todos os processos e encontrar mecanismos de financiar esse sonho.

Para fazer o seu segundo disco, “Em Cada Verso Um Contra Ataque”, você buscou compositores e usou muito bem sua rede. O que diria para mulheres que estão querendo tirar projetos do papel?

Acho que vivemos num tempo em que precisamos meter a cara e fazer acontecer. O artista precisa ser multi, não existe mais uma gravadora fazendo tudo por você, pensando tudo por você. Chegou o tempo do artista ser seu próprio gestor/empresário, e no fundo, apesar de cansar ao quadrado, acho muito mais interessante, pois essa autonomia me instiga, me estimula. A dica que eu dou é para a mulherada é: “Não espere o aval de ninguém para colocar seu trabalho no mundo, se você acredita no que está fazendo, vai lá e arrasa!”.

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