Conheça Giovana Xavier
Brasil

Conheça Giovana

NEGRAS NA CIÊNCIA
Conheça Giovana Xavier
Brasil
Gosto muito de pensar que meu trabalho inspira mulheres negras de diferentes gerações, idades e profissões a se pensarem como mulheres incríveis

Nascida e criada em bairros do subúrbio do Rio de Janeiro, Giovana Xavier é uma professora universitária negra e doutora em história social. Em 2013, quando participou de um evento que comparava a escravidão no Brasil e na Rússia, ficou muito incomodada com o fato de haver apenas uma historiadora negra na mesa de discussão. O desconforto a impulsionou a criar vários projetos: É idealizadora do grupo de estudos e pesquisas Intelectuais Negras, que virou disciplina eletiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela qual já passaram cerca de 500 estudantes nos últimos três anos. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

Junto com a professora Martha Abreu, coordena o projeto “Personagens do Pós-Abolição”, que reconstitui biografias de intelectuais negras da virada do século 19 para o século 20. Atualmente, está fazendo a biografia da Maria de Lurdes Vale Nascimento, assistente social e jornalista do Quilombo, jornal do Teatro Experimental do Negro no Rio de Janeiro.

Giovana Xavier é a criadora e responsável pela Preta Dotora no Facebook, uma Página que discute diversos temas e visa debater o fazer ciência como mulher negra. Além disso, é colaboradora da revista Pessoa e do jornal Nexo. “Sempre que tenho uma conquista, penso em como posso multiplicá-la para outras pessoas”, afirma. “Hoje, há menos de 700 professoras universitárias doutoras negras no Brasil e eu sou uma delas. Não quero ser a única Preta Dotora, né? Quero que sejamos muitas e visíveis”, completa.

Por que decidiu criar o Preta Dotora?

Meu lugar de fala é de uma intelectual negra da Academia, que é um mundo hegemonicamente branco. Em 2013, participei de um evento em que só tinha uma historiadora negra falando. Aquilo me incomodou, porque há uma tradição na historiografia de produzir conhecimentos sobre a história da população negra a partir de pontos de vista de historiadores e pesquisadores brancos. Na época, eu tinha acabado de passar em um concurso público da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ver aquela situação me incomodou. Não era algo inédito, mas me incomodou. Tenho uma política de que a gente precisa sempre avançar para além da denúncia. Acho que a denúncia é super importante, mas ela precisa vir junto com alguma proposta, alguma intervenção mais concreta. Como sou uma mulher apaixonada pela escrita, escrevi o primeiro texto para o blog. Nele, falo sobre como narrar na primeira pessoa e produzir ciência ainda é uma barreira para muitos intelectuais negros e o quanto a gente precisa se apropriar desse lugar.

Além disso, o Preta Dotora também surgiu para que eu possa me apresentar como uma versão de muitas em uma só. Ser Preta Dotora caminha junto com ser mãe, professora universitária, namorada, pegar onda, fazer yoga, ter uma carreira de intelectual pública, pagar aluguel, com um monte de coisas. Não sou só a professora universitária da UFRJ. Acho que se construir e se apresentar de vários lugares de fala é uma política feminista importante, porque somos levadas a nos confinar numa história única de nós próprias. A gente carrega muitas histórias e isso precisa ser divulgado, celebrado e inspirar outras mulheres a verem que é possível estar na carreira acadêmica e conciliar isso com a maternidade, com outros empregos, com seu próprio cotidiano.

E por que deu esse nome ao projeto?

“Outro motivo – não menos importante – para ter criado o Preta Dotora é que acho que uma marca da minha profissão é produzir incômodo. Estar no lugar de uma mulher preta que é doutora é um lugar que não é esperado para mulheres negras no Brasil. Mulheres negras estão na base de todas as estatísticas. É um nome provocativo mesmo. O que significa ser uma preta doutora? É ser uma produtora de ciência que se reconhece a partir do lugar de mulher negra. Temos que ter reconhecido esse direito de que a gente pode ser quem a gente quiser. E isso não é uma questão de presente, é um processo de luta. Em resumo, o projeto é tudo isto: Provocações de relações raciais e de gênero, associação desses múltiplos lugares de fala e a inquietação com o modelo hegemônico de produção de conhecimento que só reconhece pessoas brancas como intelectuais. Isso culminou com o Preta Dotora, que começou como blog e que depois foi sendo incorporado como uma identidade, hoje já é o nome da minha conta no instagram e vários alunos me chamam assim, brincando.

Quero visibilizar mulheres negras de uma forma geral, porque independente das carreiras que a gente ocupa, somos sempre vistas como um corpo preto, um pedaço de carne disponível. Gosto muito de pensar que meu trabalho inspira mulheres negras de diferentes gerações, idades e profissões a se pensarem como mulheres incríveis, produtoras de saberes, formadoras de gerações, empreendedoras, realizadoras…”

Uma de suas propostas é fazer ciência a partir da subjetividade. Pode falar um pouco sobre isso?

Outra pauta que me mobiliza muito é pensar sobre como faz para produzir ciência a partir de uma lógica que seja possível ser uma ciência comprometida com quem você é. Porque a academia tem um discurso de que a ciência válida é aquela que se distancia de quem você é. Tem que escrever na terceira pessoa, por exemplo. O que eu proponho e faço é justamente o contrário: ciência com subjetividade, na primeira pessoa. Então, como você produz ciência a partir do seu lugar de fala, cumprindo os requisitos da objetividade científica?

Essa é uma questão complexa porque recorrentemente quem assume o lugar de fala na produção da ciência é acusado de não estar fazendo ciência, de estar fazendo militância na academia. Quando recebo esse tipo de crítica, digo que as pessoas têm razão. Eu faço uma militância acadêmica, a ciência que eu produzo é completamente comprometida com a visibilização do protagonismo das mulheres negras na História. Agora, a gente precisa discutir mais o que é ativismo e militância.

Porque quando você tem um problema de fluxo de pensamento social brasileiro que todos os autores são homens brancos e cisgênero, isso também é uma militância. Mas que preconiza um sentido de intelectualidade ligada à branquidade, masculinidade e cisgeneridade. Mas isso não é visto como militância, é visto como norma. Acho que sou uma questionadora dessas normas com propostas para desestabilizá-las.

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