Milena Curado de Barros
Cidade de Goiás

Conheça Milena

Transformando vidas ponto a ponto
Milena Curado de Barros
Cidade de Goiás
Tanto faz se é um preso ou o governador, trato todo mundo com respeito. É assim que se constroem as relações de confiança

Milena começou um projeto social ao buscar uma solução para ampliar sua produção de vestidos e peças decorativas bordados à mão. Desde 2008, a Cabocla Criações leva trabalho, renda e contribui para redução de pena de 18 presidiários na Cidade de Goiás, por meio da delicadeza do bordado.

Linha grossa e cores fortes

O bordado faz parte da história de Milena praticamente desde quando ela se entende por gente – aos 8 anos aprendeu a arte com a avó. Em sua casa, era um hábito da família passado entre gerações, que reunia as mulheres em torno de conversas, linhas e desenhos coloridos nos dias quentes de Goiás Velho, antiga capital do estado, a 142 quilômetros de Goiânia.

Em 2007, a artesã decidiu convocar a mãe e a avó para transformar a atividade das horas vagas em um pequeno negócio. Os desenhos eram traçados à mão por Milena, inspirados na paisagem do cerrado, nos casarões tombados da cidade e na poesia de Cora Coralina. As peças eram vendidas na loja de artesanato de uma amiga. Como os turistas sempre queriam comprar alguma coisa que representasse a cidade, encontrou uma grande demanda logo no primeiro ano.

Na mesma época, Milena leu uma reportagem sobre projetos que ofereciam capacitação e trabalho a presidiários e viu ali a oportunidade de ajudar aquelas pessoas e ao mesmo tempo atender à demanda crescente pelos seus produtos. Foi até a prisão local oferecer uma oficina de bordado para um grupo de cinco detentas, para que que elas pudessem ter um ofício e serem remuneradas enquanto cumpriam pena.

A proposta foi bem recebida pela direção do presídio e pelas próprias presidiárias. Milena ia para dentro da cela munida de agulhas, linhas e tecidos repetir os ensinamentos de sua avó. As mulheres aprenderam rápido. Como algumas delas haviam sido presas como cúmplices dos maridos, não demorou para o bordado chegar à ala masculina, transmitido ponto por ponto durante as visitas íntimas. Enquanto isso, Milena também conseguiu articular para elas a remissão de pena prevista por lei – cada três dias trabalhados corresponde a um dia a menos de detenção.

Por terem penas mais brandas, as detentas foram libertadas nos últimos anos e o projeto continuou com seus maridos e outros presos. Hoje participam 18 presidiários, dois deles no regime semi-aberto, todos homens, que também ensinam as técnicas de bordado para novos colegas de cela.

“Nunca passei por nenhum constrangimento ou assédio. Os presidiários têm o maior respeito por mim. As pessoas reconhecem a importância da oportunidade”

Troca de real valor

Milena faz os desenhos, define as cores das linhas e remunera o trabalho por peça, com entregas e pagamento feitos semanalmente. Em 8 anos, os bordados da Cabocla já passaram pelas mãos de quase 300 pessoas que estiveram em detenção na Cidade de Goiás.

Para os presos, aprender a bordar foi uma ajuda para passar o tempo e diminuir a preocupação com a vida que segue fora da cadeia. Além disso, satisfação de receber o pagamento pela atividade é outro fator que contribui para a melhoria do comportamento e tensão dos encarcerados.

Além dos presidiários, o empreendimento conta com duas costureiras, a família de um dos detentos (esposa, pai, mãe e irmã) e uma atendente na loja. A mãe e a filha de Milena também participam das atividades. A produção é de 150 peças por mês, entre vestidos, batas, saias, carteiras, capas de cadernos, revisteiros e roupas infantis. Formalizada como Microempreendedora Individual, a Cabocla Criações rendeu a Milena o Troféu Ouro no Prêmio SEBRAE Mulher de Negócios, em 2015.

Quem compra um artigo artesanal de alto valor agregado se encanta. De acordo com Milena, com o passar do tempo, a clientela da Cabocla foi se tornando fiel e de 70% a 80% são pessoas que já compraram outras vezes – muitos turistas que voltam à cidade por causa de sua programação cultural intensa. Assim, embora haja demanda de vendas pela internet, a empreendedora resiste em aumentar muito a produção e descaracterizar o trabalho.

Seu maior objetivo é divulgar a iniciativa. “Quero mostrar como é possível contribuir para resolver problemas dos presos como reincidência de crimes e reinserção na sociedade. Isso não é responsabilidade somente do governo”, diz. A Cabocla recebeu reconhecimento nacional do IPHAN com o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, na Categoria Iniciativas de Excelência em Promoção e Gestão Compartilhada do Patrimônio.

A Página da Cabocla no Facebook é o canal utilizado para dar visibilidade ao projeto, difundir a identidade da marca e divulgar a presença em eventos e feiras por todo o país, onde os consumidores podem conhecer e comprar os produtos. Além da sede em Goiás Velho, a Cabocla está disponível em lojas de artesanato nas cidades de Pirenópolis e na Chapada dos Guimarães, e ainda em uma loja solidária, que comercializa produtos confeccionados por pessoas em situação de vulnerabilidade social, em um shopping de Goiânia.

Fotos: Dejumatos

Artigo anterior Próximo artigo

To help personalize content, tailor and measure ads, and provide a safer experience, we use cookies. By clicking or navigating the site, you agree to allow our collection of information on and off Facebook through cookies. Learn more, including about available controls: Cookies Policy