Monique Evelle
Salvador

Conheça Monique

Educação sinônimo de Igualdade
Monique Evelle
Salvador
Enquanto seguirmos um modelo educacional do século XVIII, com educadores do século XX e alunos do século XXI, a conta não vai fechar

Criada no Nordeste de Amaralina, periferia de Salvador, Monique Evelle vivenciou como o preconceito limita os direitos de jovens negros. Aos 16 anos, ela criou a rede Desabafo Social, que oferece atividades educacionais pautadas por Direitos Humanos e Comunicação para jovens de comunidades, especialmente negros. Hoje, aos 21 anos, também integra a RedLatinoamericana de Innovación Política, é colunista da plataforma sobre política latino-americana AsuntosdelSur e também sócia-proprietária da Kumasi, loja virtual que reúne produtos de empreendedores negros de Salvador (BA).

Se a coisa tá preta, tá boa

Filha única de uma empregada doméstica e um segurança de condomínio, Monique era exceção em qualquer escola particular de Salvador, onde a regra é a presença de jovens brancos da elite. As bolsas de estudo possibilitaram uma educação de mais qualidade do que a oferecida nas escolas públicas da cidade. Nas salas de aula, era evidente a falta de representatividade negra. Ela sentia o preconceito nas brincadeiras que os colegas faziam com seu cabelo. Também sentia falta de professoras e professores negros, e de ver negros representados no conteúdo escolar.

Bacharel em Política e Gestão da Cultura pela UFBA, Monique ainda hoje chama atenção no seu cotidiano profissional. Muitas vezes, por ser a única mulher, jovem e negra entre seus pares educadores, mas também por sua atitude afirmativa. “Por que todo mundo conhece a princesa Isabel e nunca ouviu falar de Dandara quando se fala em abolição da escravatura?”, questiona hoje a jovem educadora. Sua percepção foi combustível para, em 2012, iniciar um movimento de aliar a riqueza do conhecimento das ruas com o ensino formal para uma educação mais completa e humana.

Começo

O Desabafo Social começou em forma de grêmio estudantil quando Monique cursava o terceiro ano do ensino médio. Como estava prestes a concluir os estudos, ela resolveu levar sua iniciativa para ruas das periferias de Salvador. “Utilizei a música, principalmente o rap, para me aproximar de crianças e adolescentes. A partir daí, começamos debates com foco em direitos humanos”, conta.

Monique e seus colaboradores em 22 estados trabalham para pensar práticas pedagógicas capazes de conquistar estudantes nas ruas, nas redes sociais e nas escolas para discutir questões que não são levantadas no ambiente escolar. Eles abordam direitos sociais, questões de gênero, relações raciais e sustentabilidade para formar cidadãos conscientizados.

Atualmente, o Desabafo Social desenvolve projetos nas áreas de Educação, Comunicação e Empreendedorismo. São grupos de estudos temáticos, videoconferências com especialistas, workshops e oficinas que já atenderam mais de 2 mil jovens ao longo de cerca de quatro anos da iniciativa.

Um desses projetos é o Redes Vivas, articulado com coletivos e organizações para reunir informações sobre o Sistema Único de Saúde e Sistema Único de Assistência Social do Governo Federal. Por meio de ações e parceria com profissionais autônomos, eles oferecem atendimento voluntário ou com um valor acessível para pessoas negras, transsexuais e travestis em comunidades da periferia de Salvador.

Eu sou porque nós somos

Monique também é uma das idealizadoras da Rede Social Ubuntu, uma plataforma de aprendizagem colaborativa. O nome, na língua Zulu, se refere a uma ideia de coletividade que pode ser traduzida como “eu sou porque nós somos”. A rede desenvolvida a partir do trabalho do Desabafo, além de conectar pessoas, estimula multiplicação de ideias. A partir de um cadastro simples, os usuários da comunidade têm acesso a ferramentas para cocriação de conteúdo, organização de uma biblioteca online, divisão de tarefas e calendário. Mais de 3 mil pessoas utilizam a rede para trocar conhecimentos e habilidades.

Em 2017, o Desabafo Social deve se tornar também uma plataforma de educação à distância. “É um projeto que pode ser implantado em qualquer lugar onde existam pessoas dispostas a incentivar Direitos Humanos e Comunicação”, convida Monique.

Aos 21 anos, Monique ganhou reconhecimento como uma das 25 mulheres negras mais influentes da internet no Brasil pelo portal Blogueiras Negras e também consta na lista das Mulheres Inspiradoras 2015, da ONG Think Olga. Como empreendedora, Monique criou a Kumasi, loja virtual que reúne produtos de empreendedores negros de Salvador (BA). Além disso, integra a RedLatinoamericana de Innovación Política e é colunista da plataforma sobre política latino-americana AsuntosdelSur.

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