Ana Mattioni

O que a paternidade tem a ver com a carreira das mães?

Ana Mattioni
Pais, como vocês conciliam a paternidade com a vida profissional, para que as mães dos seus filhos também possam conciliar?

Falar sobre maternidade e carreira é sempre um grande desafio. Há grandes chances de eu já ter acionado em você a sirene do “lá vem textão”

Bem, não deixa de ser.

Mas, hoje, usando o espaço a mim concedido neste mês das mães, numa publicação que deveria ser sobre maternidade e carreira, eu escolhi visitar um território bem menos explorado: o da paternidade e carreira. E, num piscar de olhos, vocês vão sacar que essas duas coisas têm tudo a ver.

Por que ninguém pergunta aos homens como é que eles conciliam a paternidade com a vida profissional?

Ou então: “E quem fica com o bebê quando você trabalha até tarde da noite?”

Ou ainda: “Você vai ter CORAGEM de voltar ao trabalho e deixá-lo tão pequeno assim?”

Em um país onde 39% dos lares são chefiados por mães-solo que, em sua maioria, sustentam os filhos com a renda de seu trabalho em um, dois ou até três empregos, ainda sofremos toda a ordem de perguntas invasivas, julgamentos e recriminações.

Mesmo quando gozamos de uma posição privilegiada, com capacitação profissional e rede de apoio reforçada, que é o caso da minoria esmagadora da população brasileira, nós mulheres somos questionadas desde o dia em que anunciamos a gravidez e, em alguns casos, até antes mesmo de engravidarmos.

Pressupõe-se que a mulher que tem filho é onerosa para a empresa, muitas vezes é dispensada após a licença-maternidade e, quando não, é colocada pra escanteio. O homem que se torna pai passa a ser mais responsável, pode-se confiar nele e – quem sabe – até promovê-lo, uma vez que agora ele tem uma família que depende do seu pró-labore.

A mulher que sai mais cedo para a reunião de pais é aquela com quem nunca se pode contar. O homem que vai à reunião de pais é um paizão exemplar. Já se falta à reunião, a mulher é relapsa. O homem é compreendido, devia estar muito ocupado.

Essa assimetria de tratamentos é, em grande parte, responsável por fazer a nossa jornada no mercado de trabalho muitas vezes insustentável.

A carga da maternidade só é tão pesada porque todo nosso entorno, de forma estrategicamente cruel, atribui à mãe toda a responsabilidade pela criação dos filhos.

As mães têm dever e culpa. Os pais têm direito.

É isso que reproduzimos quando perguntamos à mãe se ela tem CORAGEM de viajar sem os filhos nas tão suadas férias, mas para o pai dizemos que ele MERECE um descanso, porque a rotina é muito puxada.

Essa responsabilização não só nos distancia imensamente do sucesso profissional, dos altos cargos e da equiparação salarial como nos aproxima cada vez mais de uma culpa infinita que nos faz, muitas vezes, desistir de uma carreira brilhante, tendo de escolher entre o trabalho e os filhos.

E enquanto em nós borbulham as inquietações, crises de ansiedades e martírios, os pais, que têm culturalmente o papel de prover, podem dormir com a sensação de dever cumprido quando chegam em casa e as crianças já estão dormindo.

Essa não é uma disputa de quem se sente mais ou menos culpado (até porque seria bem desleal a competição). Mas é também papel do homem reivindicar seu direito de ser pai. De exercer seu ofício na família tal qual exerce no trabalho. De lutar por uma licença-paternidade digna e assim se posicionar como uma figura tão importante quanto a materna para aquele novo ser que acaba de chegar. Estabelecer conexões com os filhos desde os primeiros momentos de vida, para que não recaia sobre o pretexto de que “o bebê só quer a mãe”. Essa mãe guerreira que, milagrosamente, consegue equilibrar tantos pratos, todos os dias. Nós não queremos ser guerreiras. Nós estamos cansadas de ser guerreiras. Exaustas. Ninguém nasce pra matar um leão por dia. Queremos ser mães e profissionais e mulheres e, no fim do dia, deitar a cabeça no travesseiro sem culpa por ter sido mais uma coisa do que outra.

Diante da minha inquietude, eu finalizo com um questionamento: Pais, como vocês conciliam a paternidade com a vida profissional, para que as mães dos seus filhos também possam conciliar?

Por Ana Mattioni, co-fundadora do Mad Women e embaixadora de #ElaFazHistória

Artigo anterior Próximo artigo

To help personalize content, tailor and measure ads, and provide a safer experience, we use cookies. By clicking or navigating the site, you agree to allow our collection of information on and off Facebook through cookies. Learn more, including about available controls: Cookies Policy